Exame abdominal

Olá pessoal!

Há alguns dias eu estava discutindo com uma médica, amiga, sobre a importância do exame abdominal, pois à medida que a tecnologia disponibiliza métodos diagnósticos variados, os profissionais da saúde tendem a pôr em segundo plano o exame físico, tão importante para o diagnóstico médico e de enfermagem.

O exame abdominal, integrante do exame físico, faz parte da primeira etapa da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) – investigação (anamnese e exame físico) –, que deve ser realizada pelos enfermeiros, a fim de elencar os diagnósticos prioritários e as prescrições de enfermagem relacionadas.

Vale ressaltar que a realização da SAE converge com preceitos ético-legais da profissão do Enfermeiro previstos na Lei do Exercício Profissional 7498/86, Código de Ética da Profissão e outras resoluções.

Portanto, o enfermeiro, integrante da equipe multidisciplinar de saúde e respaldado pela lei que rege a categoria profissional, deve realizar o exame abdominal de forma minuciosa e criteriosa e interpretar adequadamente os resultados obtidos. Para isso é fundamental o conhecimento da anatomia, fisiologia e fisiopatologia da parede abdominal, da cavidade abdominal e dos órgãos nela contidos.




Algumas dicas

  • Procure realizar o exame em um ambiente calmo, iluminado, e na temperatura adequada – o frio tensiona a parede do abdome
  • Posicione, de forma adequada e confortável, o paciente para a palpação do abdome – posição dorsal horizontal – quanto mais confortável ele estiver, mais relaxado ficará. Certifique-se que o paciente está de bexiga vazia. Deixe toda a região exposta desde o apêndice xifóide até a sínfise púbica
  • Delimite as regiões da face anterior do abdome (epigástrio, mesogástrio, hipogástrio, hipocôndrios, flancos, fossas ilíacas – quadrantes superiores e inferiores – essa divisão é necessária para a referência de sinais e sintomas. Utilize a divisão de 9 regiões – para localizar mais precisamente um achado. Estruturas encontradas em cada região (Morton & Fontaine):
    • Hipocôndrio direito – lobo hepático direito e vesícula biliar
    • Epigástrio – extremidade pilórica do estômago, duodeno, pâncreas e porção do fígado
    • Hipocôndrio esquerdo – estômago, cauda do pâncreas, flexura esplênica do cólon
    • Flanco direito – cólon ascendente, porções do duodeno e jejuno
    • Mesogástrio – omento, mesentério, parte inferior do duodeno-jejuno-íleo
    • Flanco esquerdo – cólon descendente, porções do jejuno e íleo
    • Fossa ilíaca direita – ceco, apêndice, extremidade inferior do íleo
    • Hipogástrio – íleo
    • Fossa ilíaca esquerda – cólon sigmoide
  • Verifique e descreva as características do abdome quanto à forma: simétrico (normal), assimétrico, escavado (retraído), plano (normal), globoso (crescido de maneira uniforme), avental e pendular (acúmulo de tecido adiposo), abdome de batráquio (dilatação exagerada para os flancos), com abaulamentos – hepatomegalia, esplenomegalia, hérnias, megacólon chagásico, meteorismo (gases em vísceras ocas), ascite (líquido na cavidade abdominal) entre outros –, com retrações (ptose visceral)
  • Verifique e descreva a rede venosa e presença de circulação colateral – avaliação da circulação portal, bem como de peristaltismo visível, comum em pacientes emagrecidos
  • Faça a ausculta do abdome antes da percussão e palpação, pois estas manobras podem alterar os ruídos peristálticos (ruídos hidroaéreos). Ausculte pelo menos por 2 a 5 minutos para ouvir os borborigmos. Também podem ser detectados o atrito de superfície peritoneal e sopros vasculares, entre outros. Ruídos hidroaéreos diminuídos ocorrem em pós-operatório de cirurgia abdominal, íleo paralítico, distúrbios eletrolíticos, isquemia de cólon, obstrução intestinal e os ruídos aumentados representam hipermotilidade, por exemplo, nos casos de diarreia, uso de laxantes ou na fase inicial da obstrução intestinal (obstrução incompleta do intestino)
  • Faça a percussão, pois ela auxilia na determinação do tamanho das vísceras sólidas e na avaliação da presença e distribuição de gases, massas ou líquidos. Devem ser feitas, pelo menos, 3 percussões em cada local. Podem ser obtidos 4 tipos de som: timpânico (presença de conteúdo gasoso no tubo digestivo), hipertimpânico (timpanismo mais sonoro – maior conteúdo aéreo, por ex. meteorismo, obstrução intestinal, pneumoperitônio, etc.),  submaciço (menor quantidade de gases ou a presença de um órgão maciço nas proximidades), maciço (área sólida)
  • Faça primeiro uma palpação superficial, comparando simultaneamente as áreas direita e esquerda para detectar pequenas, mas importantes diferenças na tonicidade da musculatura e na sensibilidade. A hipertonia da parede abdominal decorre da forte contração da musculatura e pode ser de origem voluntária (falta de relaxamento por frio, ansiedade ou posição inadequada) ou involuntária (irritação do peritônio parietal). A palpação mais profunda tem como objetivo palpar o conteúdo abdominal, procurando visceromegalias, principalmente, fígado, baço e detectar massas abdominais (tumorações). Pode ser feita com as duas mãos – palpação com uma das mãos e pressão em sentido contrário com a outra – bimanual (técnica de Lemos-Torres) ou com as mãos em garra (técnica de Mathieu)




Algumas manobras especiais e seus sinais

  • Sinal de McBurney ou Blumberg – descompressão brusca dolorosa – dor após a retirada de uma compressão lenta e profunda no abdome: indicativo de peritonite por apendicite, pancreatite, colecistite, diverticulite, lesão peritoneal
  • Sinal de Rosving – palpação profunda e contínua no quadrante inferior esquerdo que produz dor intensa no quadrante inferior direito: indicativo de apendicite
  • Sinal de Murphy – dor intensa, interrupção da respiração e contratura de defesa quando é pressionado o ponto cístico (borda subcostal direita – região da vesícula biliar): indicativo de colecistite
  • Sinal de Jobert – sons timpânicos ao invés de maciços na região da linha hemiclavicular direita – área hepática: indicativo de ar livre na cavidade abdominal (perfuração de víscera oca, pneumoperitônio)
  • Sinal de Grey-Turner – presença de equimoses em flancos: indicativo de hemorragia intraperitoneal
  • Sinal de Cullen – presença de equimoses em região periumbilical: indicativo de hemorragia intraperitoneal
  • Sinal do Obturador – dor na região hipogástrica durante a rotação interna da coxa previamente fletida até o seu limite: indicativo de apendicite
  • Sinal de Lapinsky (ou do músculo Psoas): dor à compressão do ceco contra a parede posterior do abdome enquanto se eleva o membro direito estendido: indicativo de apendicite
  • Sinal de Gersuny – crepitações que ocorrem ao descomprimir o abdome (deslocamento da mucosa aderida à superfície do fecaloma): indicativo de fecaloma
  • Sinal de Giordano – dor à percussão na região lombar: indicativo de processo inflamatório retroperitoneal, litáise renal, pielonefrite
  • Sinal de Torres-Homem – dor intensa, despertada pela percussão abdominal de áreas da zona de projeção do fígado, feita com as pontas dos dedos reunidas: indicativo de abscesso hepático, amebiano ou bacteriano.

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Prof. Dra. Elizabeth Galvão
Doutora em Ciências (EEUSP), pós-graduada em Administração Hospitalar (UNAERP) e Saúde do Adulto Institucionalizado (EEUSP), especialista em Terapia Intensiva (SOBETI) e em Gerenciamento em Enfermagem (SOBRAGEN). É professora titular da Universidade Paulista no Curso de Enfermagem, e professora do Programa de Especialização Lato-sensu em Enfermagem em Terapia Intensiva e Enfermagem do Trabalho na Universidade Paulista.
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