Gênero feminino: os desafios dos profissionais de enfermagem

Hoje quero compartilhar com vocês a minha participação na Mesa Redonda: “Gênero feminino: desafios no trabalho da enfermagem” no CONCE – Congresso Nacional Científico dos Enfermeiros, onde tive a oportunidade de trocar informações sobre esse assunto com a Mestre em Saúde Coletiva e Secretária Municipal de Políticas para as Mulheres da Prefeitura de São Paulo, Denise Motta Dau. Fiquei muito feliz em participar e aproveito novamente para agradecer a comissão organizadora pelo convite.

Todos nós sabemos que a presença feminina nas práticas de enfermagem vem desde os tempos remotos, por meio de saberes passados de geração para geração, voltados para o cuidado de homens, mulheres, idosos, crianças, deficientes e necessitados.

E, com isso, houve a construção cultural do papel ou figura da mulher-mãe, detentora de um saber informal de práticas de saúde, possuidora de maiores habilidades para os cuidados com a saúde e doença. Esse padrão cultural é transmitido de forma “natural”, desde os processos educacionais informais e formais, que reproduzem formas de hierarquia sexual e desigualdade.

Percebe-se uma aceitação natural das próprias profissionais de enfermagem, compreendendo que algumas atividades são mais próprias para mulheres, em razão de possuírem mais habilidades. Em algumas atividades, as habilidades e qualidades femininas passam a ser critérios para contratação, e às vezes, se sobrepõem a formação e especialização, caracterizando desigualdade no que se refere a preferência por um ou outro sexo em diferentes funções.

Essa relação estabelecida entre a enfermagem e o gênero feminino é um fator determinante para a segregação técnica, política e social do trabalho, que acaba gerando a percepção errada de menor valor profissional.

Ao longo dos anos, as profissionais de enfermagem têm carregado imagens estigmatizadas e estereotipadas (visões distorcidas da profissão) que ainda repercutem na prática profissional, dificultando as relações com a equipe de saúde e com usuários dos serviços.

São vários os desafios que temos que enfrentar, como por exemplo:

Divisão sexualsurge em decorrência da existência de hierarquia e dominação nas relações de trabalho, principalmente, pela permanência da feminização no trabalho da área da saúde. A divisão sexual do trabalho também pode ser compreendida como “natural” para os pacientes quando alegam que a “enfermeira cuida” e o “médico trata”, atribuindo vocabulário feminino para a enfermeira e masculino para o médico.

A organização do ambiente hospitalar também decorre desse conceito, uma vez que o ambiente é organizado, preparado, arrumado quase que na totalidade por mão de obra feminina.

Somada a isso, também, podemos ver a precarização do trabalho feminino, pois o trabalho das mulheres tem sido marcado por um processo que mistura exclusão com “inserção excluída”:

Considera-se ‘inserção excluída’ a maior concentração das mulheres em determinados setores ou postos de trabalho em condições mais precárias, com remunerações menores, pouco acesso à qualificação profissional e ao uso da tecnologia, tudo isso dificultando a sua ascensão e acentuando a divisão sexual do trabalho. (Berttolin e Kamada, 2012)

Baixa visibilidade profissional para cargos de chefia –  ainda é muito baixa a proporção de mulheres em cargos de chefia, que são ocupados predominantemente por homens. Os homens não se sentem confortáveis conferindo poder de decisão gerencial às mulheres. Quando as mulheres ocupam esses cargos, na maioria das vezes, submetem-se a uma instância superior que determina as ações a serem desenvolvidas.

As relações de gênero ainda são permeadas por desigualdades e as mulheres acabam assumindo funções menos qualificadas e menos remuneradas.

Posicionamento na mídiaa mídia naturaliza a discriminação e o sexismo contra a profissional de enfermagem, veiculando-a como símbolo de fantasias sexuais, circulando fatos constrangedores e, consequentemente, promovendo a inferiorização do profissional por meio de publicidade, programas humorísticos, peças de teatro, novelas, entre outros.

Violência (assédio moral e sexual) esse tipo de violência fere a integridade física e psíquica e a dignidade da profissional, degradando o ambiente de trabalho. Na maioria das vezes tem o intuito de obter vantagens ou favorecimento sexual a partir de uma relação de poder e hierarquia.

A profissional do gênero feminino se submete a várias formas de violência, mantendo-se no emprego por: medo do desemprego, valor do salário, condições precárias de outros empregos, medo do questionamento de familiares e amigos e por acreditar na possibilidade do assédio acabar ou diminuir com o passar do tempo.

Pouca representação social e política é feita na maioria por profissionais do gênero masculino. Para isso, utilizam-se práticas que dificultam a participação ou não incentivam a participação das mulheres nas organizações criadas dentro das instituições.  Como exemplo dessa falta de paridade pode-se destacar que “as mulheres representam 51,3% da população brasileira. Entretanto, a participação do público feminino na política é pequena e não corresponde à proporção de mulheres no país”. Dados do IBGE (2013)

É possível detectar a tímida participação da profissional do gênero feminino nos espaços sindicais, assim como em outras esferas do espaço público. A política de cotas, estruturada nas últimas décadas e considerada um avanço no acesso das mulheres aos cargos eletivos do país, foi adotada, também, pelas Centrais Sindicais, mas estas ainda encontram dificuldades em fazer com que os sindicatos cumpram as cotas para mulheres nas suas diretorias.

Mas, quando as mulheres conseguem fazer parte das lideranças e conseguem “vencer as dificuldades construídas” na prática das relações sindicais, tornam-se líderes competentes.

Hierarquização / subordinação ao médicoainda persiste a visão de que a enfermagem e outras profissões criadas tem “status” inferior ao do médico, bem como a visão da sociedade em geral, inclusive de médicos, de que a enfermeira é uma profissional que lhes deve obediência, que lhes é subordinada no processo de trabalho.

É argumentado por alguns autores que isso ocorre devido ao fato da Florence Nightingale, naquela época, não permitir que as enfermeiras prestassem assistência sem ordem dos cirurgiões militares, institucionalizando o papel da enfermeira subordinada ao médico.

Falta de reconhecimento de cientificidadepermanece a visão de mero fazer empírico e a falta de reconhecimento da cientificidade pela população em geral e demais profissionais, em especial o profissional médico. Há um desconhecimento sobre a real atuação do enfermeiro pela própria história da profissão no imaginário coletivo e por estereótipos criados pela mídia.

Vale ressaltar que o comportamento inadequado de alguns profissionais como, por exemplo, falta de postura, falta de ética, vestimentas e linguagem inadequadas, colabora muito para esse cenário.

A falta de reconhecimento da cientificidade contribui para a posição de reduzida visibilidade, gerando sofrimento ao enfermeiro e dificultando suas relações com a equipe multiprofissional e a sua autonomia.

Desigualdade salarial –  as diferenças salariais entre homens e mulheres ainda continuam significativas, apesar das políticas destinadas a reduzir as desigualdades. Em média, os homens ganham aproximadamente 25,6% a mais que as mulheres e a diferença salarial mais alta ocorre em mulheres com maior grau de instrução.

Uma publicação no portal G1 Economia, de Luiza Bandeira (BBC Brasil em Londres) em novembro de 2015 (que você pode ler aqui), mostra por meio de cálculos feitos pelo IBGE, que devido à desigualdade salarial as mulheres trabalham de graça de outubro à dezembro.

Essas diferenças salariais entre os gêneros representam obstáculos para o empoderamento econômico das mulheres e a superação da desigualdade.

Receber o mesmo salário que os homens em condições de igualdade é um direito das mulheres. É um requisito inevitável para que alcancem a autonomia econômica e para avançar na igualdade de gêneros. (Alicia Bárcena – Secretária Executiva da CEPAL)

Em relação ao exposto, acredito ser necessária uma mobilização a para pressionar os programas televisivos e propagandas a reproduzir uma imagem positiva do profissional de enfermagem, uma vez que ele contribui de maneira efetiva para sustentar a saúde pública no Brasil.

No que se refere a hierarquização e reconhecimento da profissão, os profissionais podem ser os divulgadores da sua atividade por meio da projeção de uma imagem congruente do trabalho desenvolvido.

O modo de agir no ambiente de trabalho, a competência, o conhecimento, o marketing pessoal e o compromisso profissional aliados à prática da Enfermagem poderão transformar essa imagem social.

Há sinais de transformações sociais nas relações de gênero percebidas no cotidiano, mas a o seu progresso depende de mudanças comportamentais da sociedade como um todo. Acredita-se que a divisão sexual do trabalho e as desigualdades podem ser modificadas e que é absolutamente possível construir ambientes de trabalho com relações mais igualitárias

Somos todos responsáveis em construir a nossa história. Portanto, é imprescindível que os profissionais sejam capazes de identificar e refletir sobre os prejuízos e tradições que perpetuam na Enfermagem, no sentido de superá-los. (Gentil, 2009)

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Prof. Dra. Elizabeth Galvão

Doutora em Ciências (EEUSP), pós-graduada em Administração Hospitalar (UNAERP) e Saúde do Adulto Institucionalizado (EEUSP), especialista em Terapia Intensiva (SOBETI) e em Gerenciamento em Enfermagem (SOBRAGEN). É professora titular da Universidade Paulista no Curso de Enfermagem, e professora do Programa de Especialização Lato-sensu em Enfermagem em Terapia Intensiva e Enfermagem do Trabalho na Universidade Paulista.


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