O enfermeiro e os riscos da participação na automedicação dos outros

Hoje, atendendo a um leitor, escrevo sobre os perigos da automedicação e da participação dos profissionais de enfermagem na automedicação das pessoas em geral.

Muitas vezes, somos requisitados por amigos, parentes, vizinhos para a aplicação de medicamentos por via parenteral (intramuscular, subcutânea e até mesmo endovenosa) sem prescrição médica. Isso representa um risco, pois não sabemos qual o tipo de reação que o indivíduo pode ter e o quanto estaremos atrasando a investigação e o diagnóstico correto.

O fato de ter tomado um ou outro medicamento anteriormente não dispensa a avaliação médica para a situação atual, e a automedicação pode levar ao aparecimento de outras manifestações clínica e atrasos no tratamento, que culmina no agravamento dos problemas de saúde ou em danos irreversíveis.

Apesar de ser exigida a apresentação da receita médica para a venda, os medicamentos mais utilizados são ansiolíticos, anorexígenos, psicotrópicos e antidepressivos, que são adquiridos por meios não oficiais.


A maioria dos medicamentos analgésicos, antitérmicos, anti-inflamatórios, antiespasmódicos são vendidos nas farmácias sem a exigência da receita médica. As pessoas buscam esses medicamentos com o objetivo de ter alívio nos sintomas, entretanto, podem mascarar a verdadeira causa desses sintomas e sofrer reações adversas.

As reações adversas resultantes da automedicação podem variar desde processos alérgicos brandos até reações anafiláticas (hipersensibilidade imediata) que podem levar a complicações sérias e risco de morte.

Tipos de Uso Irracional de Medicamentos (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia)

  • Uso inadequado de medicamentos antimicrobianos, frequentemente em doses incorretas ou para infecções não-bacterianas
  • Uso excessivo de injetáveis nos casos em que seriam mais adequadas formas farmacêuticas orais
  • Prescrição em desacordo com as diretrizes clínicas
  • Automedicação inadequada, frequentemente com medicamento que requer prescrição médica

Interação farmacológica

Alguns medicamentos podem ter seus efeitos potencializados ou anulados quando administrados juntamente com outros fármacos e bebidas alcoólicas.

Em relação ao uso indiscriminado, sem obediência as dosagens e os intervalos prescritos, a farmacêutica Lúcia Habib explica que os medicamentos possuem “janelas terapêuticas”, isto é, a diferença entre a concentração mínima eficaz e a concentração tóxica. Quanto menor essa diferença, maior o risco para a vida do paciente. Cada medicamento recebe uma classificação de risco e quando este apresenta uma janela terapêutica muito pequena pode ser muito perigoso.

Os antibióticos são fármacos de risco, uma vez que as bactérias são micro-organismos que podem sofrer mutações. Indivíduos que utilizam abusivamente vários tipos de antibióticos, sem qualquer critério, além de apresentarem grande probabilidade de criar resistência aos medicamentos, também sofrem alterações na flora intestinal, na audição, no metabolismo do sangue, no funcionamento do fígado, entre outros, podendo até causar danos graves ao sistema nervoso central.

Um estímulo para a promoção da automedicação e, às vezes, o uso inadequado e perigoso de medicamentos, são as propagandas ofertadas em sites, que tendem a evidenciar os benefícios e omitir ou minimizar possíveis riscos e efeitos adversos para saúde, restringindo-se a inserir no final da propaganda a tradicional frase “persistindo os sintomas um médico deve ser consultado”.

Razões para a automedicação (Revista da Associação Médica Brasileira)

  • A propaganda massiva de determinados medicamentos
  • A dificuldade e o custo de conseguir uma opinião médica
  • A limitação do poder prescritivo, restrito a poucos profissionais de saúde
  • O desespero e a angústia desencadeados pelos sintomas
  • A falta de regulamentação e fiscalização daqueles que vendem
  • A falta de programas educativos sobre os efeitos muitas vezes irreparáveis da automedicação


O Trabalho de Conclusão de Curso da acadêmica Patrícia Sousa, hoje enfermeira, sobre a influência da internet na automedicação, evidenciou que a prática da automedicação é recorrente e adotada diversas vezes, por grande parte dos pesquisados. A burocracia nos serviços de saúde, a alta demanda de pacientes, a demora no atendimento associados a oferta de medicamentos e facilidade na aquisição emergem como fatores estimulantes para a prática da automedicação.

Faz-se necessário a implementação de programas educativos para a população em geral, e, também, para os profissionais de saúde, enfermeiros, farmacêuticos, entre outros, para que se modifiquem os pensamentos, revisando conceitos e mudanças comportamentais, consolidando novas formas de buscar e manter a saúde.

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Prof. Dra. Elizabeth Galvão

Doutora em Ciências (EEUSP), pós-graduada em Administração Hospitalar (UNAERP) e Saúde do Adulto Institucionalizado (EEUSP), especialista em Terapia Intensiva (SOBETI) e em Gerenciamento em Enfermagem (SOBRAGEN). É professora titular da Universidade Paulista no Curso de Enfermagem, e professora do Programa de Especialização Lato-sensu em Enfermagem em Terapia Intensiva e Enfermagem do Trabalho na Universidade Paulista.


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